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BUSCA DE NOTÍCIAS DE 2013 A 2020
domingo, 12 de julho de 2020

 
Essa é destaque no Jornal do Commercio:
Uma placa ainda discreta na
margem direita da BR-424 indica o caminho para a primeira vinícola instalada no
Agreste de Pernambuco. A cerca de dez quilômetros do Centro de Garanhuns, a
Vale das Colinas se prepara para abrir as portas ao público no último trimestre
deste ano, dando início oficialmente à vitivinicultura de altitude e ao
enoturismo na Região.
O empreendimento é a vitrine
privada de um projeto desenvolvido por três entidades públicas com o objetivo
de formar um novo terroir de produção de vinhos no Estado, a exemplo do que
ocorreu no Vale do São Francisco, no Sertão, a partir da década de 60.
Quando comprou a propriedade
de 35 hectares em 2013, o médico cearense Michel Moreira Leite só queria um
lugar “friozinho” para viver com a família. Depois de fazer um curso básico de
enologia, passou a alimentar o sonho de plantar uva e fabricar seus próprios
rótulos. Mas não fazia ideia por onde começar diante de um terreno descampado,
até então dedicado à criação de animais. “Fui à unidade de Petrolina da Embrapa
(Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em busca de me informar se era
algo possível”, conta.
Não imaginava que a
harmonização de interesses seria tão perfeita. Para sua felicidade, soube que
tanto era viável como já estavam sendo dados os primeiros passos do cultivo em
Brejão. No município próximo a Garanhuns, pesquisadores da Embrapa e da
Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) testavam o desempenho das
uvas viníferas e o seu potencial enológico em um campo experimental do
Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). 

Partiram da tese de que o solo
(arenoso argiloso), a altitude (quase 800 metros acima do nível do mar) e as
condições climáticas (temperatura média anual de 20.4°C) seriam favoráveis à
nova cultura. Faltava verificar na prática. “Introduzimos dez variedades, das
quais se destacaram em volume as tintas cabernet sauvignon, malbec e syrah e as
brancas muscat blanc à petits grains, sauvignon blanc e viognier”, registrou Mairon
Moura, professor de fruticultura da Ufape
Vinificadas as uvas e feitos
todos os testes, a primeira degustação ocorreu em 2017. Foi a prova final para
chancelar os vinhos elaborados na região como aptos à produção em escala
comercial. “Concluímos que o produto se adequa às exigências da legislação
brasileira para vinho fino seco em requisitos como teor alcoólico e de
açúcares, acidez total e volátil e dióxido de enxofre total”, pontuou Aline
Biasoto, pesquisadora do laboratório de enologia da Embrapa Semiárido.
De acordo com a especialista,
o envelhecimento natural das videiras e ajustes nas épocas de poda e colheita
trarão ainda mais qualidade à bebida, aumentando a sua capacidade de
guarda. Por enquanto, os vinhos estão classificados como jovens, para consumo
em curto período. “Ficamos felizes com o resultado. Isso porque nossa meta
maior é proporcionar uma alternativa econômica para pequenos e médios produtores,
associada ao desenvolvimento do turismo regional, uma vez que Garanhuns já tem
o apelo do clima e de atrativos culturais”, acrescenta outra das líderes do
projeto, a doutora em genética e melhoramento de plantas Patrícia de Souza
Leão.
Pioneiro em assumir o desafio,
Michel Leite incorporou-se à iniciativa através de um convênio de cooperação
técnica. Contribui financeiramente para a sua execução e disponibiliza o
parreiral para novos estudos, enquanto recebe suporte científico e capacitação
profissional.
Com o conhecimento já
acumulado, a Vale das Colinas conseguiu acelerar etapas. Na inauguração, já
poderão ser degustados três vinhos, frutos da primeira vindima, ocorrida entre
janeiro e fevereiro deste ano. São dois tintos e um branco, respectivamente:
Dona Elisa (malbec), Cabana do Vale (cabernet sauvignon) e Dona Cecília (muscat
blanc à petits grains). Os rótulos homenageiam as filhas de Michel e o primeiro
chalé da família na chácara. 
Para os próximos anos, outras
variedades estão sendo implantadas, como a syrah (tinta) e a viognier (branca).
Serão testadas, ainda, mourvedre e pinot noir (ambas tintas) e riesling
(branca). No futuro, espumantes devem se incorporar ao portfólio.
O Empreendedor não revela o
investimento, mas um estudo de pesquisadores que acompanham o projeto de Brejão
e a vinícola desde o início mostra que o custo total por hectare para produção
de uva destinada ao processamento na região fica em torno de R$ 172 mil. O
montante inclui despesas básicas desde o preparo do solo na implantação até a
primeira colheita produtiva no terceiro ano de cultivo. Desconsidera, no
entanto, o valor da terra e da captação de água para irrigação, sem a qual a
atividade não pode ser viabilizada.
Na safra de estreia da Vale
das Colinas, a produção inicial esperada é de cinco mil garrafas, mas o valor
de cada rótulo ainda não foi definido. “Nesta colheita, tivemos despesas extra,
porque precisamos enviar as uvas em câmaras frias para vinificar em Petrolina.
A pandemia atrapalhou os planos de construção da fábrica, que só deve ficar
pronta em 2021”, diz Michel. O empresário antecipa que a estrutura também
agregará espaço multieventos, restaurante, área de exposições e palco móvel
para pequenos shows acústicos.
PIONEIRISMO – Desde o
pórtico de entrada, a Vale das Colinas não deixa a dever em cenário a vinícolas
de outras regiões do Brasil e do exterior. Um conjunto de placas indicativas,
aliás, apontam a distância e a direção para alguns dos terroirs famosos no
mundo que inspiram o empreendimento. Caso do Vale do São Francisco, Serra
Gaúcha, Mendoza (Argentina), Vale do Maipo (Chile), Douro (Portugal), Toro
(Espanha), Bordeaux (França) e Toscana (Itália).
Em meio às videiras, começa a
diversão para iniciados ou não na arte do vinho. A cada trecho, estão
sinalizadas as castas cultivadas, que permitem distinguir as diferenças básicas
entre as uvas, principalmente entre dezembro e janeiro, quando as plantas
amadurecem. “Teremos sempre um sommelier para acompanhar os visitantes e
explicar as características de cada variedade e dos vinhos a que dão origem”,
conta Michel Leite.
 Além das influências do
clima e do solo na qualidade dos rótulos, o proprietário da Vale das Colinas
acredita em outro fator poderoso: a música. Do nascer ao pôr do sol, as
parreiras são embaladas por melodias clássicas “para não esquecerem as origens
europeias”, brinca Michel. “Mas também há frevo e baião instrumentais, para
reforçar as raízes nordestinas”, diverte-se. Tenha ou não efeito sobre o sabor
do vinho, a trilha sonora ecoa por todo o espaço e torna a visita ainda mais
agradável.
Depois do vinhedo, a próxima
etapa do tour será na fábrica, para aprender sobre o processo de vinificação,
desde a preparação do mosto e fermentação até o amadurecimento e envase da
bebida. Como a estrutura só deve ser concluída em 2021, inicialmente o passeio
será “desviado” para a bodega provisória instalada no charmoso chalé principal.
É onde ocorre a degustação com vista para as colinas que dão nome à vinícola.
Nos dias frios do inverno, a experiência fica mais intimista, em torno da
lareira.
Mas a grande área ao ar livre
convida mesmo é a passear sem pressa e escolher um dos muitos cantinhos
pensados para um piquenique à beira do lago. O reservatório é formado por
nascentes da região que deságuam no Rio Mundaú. Além de contribuir para o
sistema de irrigação dos parreirais, garante entretenimento até para a
criançada, com pedalinhos e o parque natural do entorno. Patos, pavões e pássaros
da região são companhias certas por ali.
Dos 35 hectares da
propriedade, pelos menos 7 abrigam uma reserva ecológica, com espécies nativas,
frutíferas e ornamentais. “Já temos mais de duas mil mudas, que incluem
ipê amarelo, jacarandá e flamboyant”, diz o estudante de agronomia da
Ufape Walter Leal, envolvido no empreendimento desde a sua concepção e um dos
responsáveis pelo plantio e preservação ambiental.

Os princípios de
sustentabilidade baseiam outros aspectos do projeto, que reaproveita água das
chuvas e já tem um sistema desenvolvido para o tratamento dos resíduos sólidos.
“Queremos minimizar ao máximo o impacto no ecossistema, que é a nossa maior riqueza”,
corrobora Michel, cheio de planos para o futuro. Entre eles, a construção de
chalés para hospedagem na vinícola e a criação do circuito de enoturismo de
Garanhuns.
(Com informações e imagens de Mona Lisa
Dourado
/JC. CONFIRA)

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